Milagreiros

Milagreiros
Mais ágil que o Vaticano, fé do povo cria dezenas de "santos"
Diário de São Paulo, 16/05/2004

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Se dependesse da vontade popular, o Brasil teria centenas, talvez milhares, de santos e santas — e não apenas uma, a santa Paulina, canonizada em 2002. Somente na cidade de São Paulo existem pelo menos 19 “milagreiros” atrás dos muros e nas sepulturas dos cemitérios municipais.

Izildinha, Antoninho, Neusinha, Cesinha, Silvinha - crianças que foram martirizadas por assassinatos, tragédias ou sofrimentos com doenças - transformaram-se, no imaginário coletivo, em divindades que o povo escolheu adorar. O longo caminho que o Vaticano impõe até a canonização é cortado pelo atalho da fé popular.

Alguns desses “milagreiros” levam aos cemitérios uma legião de devotos em busca de um milagre, de uma cura ou - sinal dos tempos - de emprego. “Primeiro peço a Deus, depois à ‘santa’ Débora”, diz o coveiro Raimundo dos Santos, que se diz devoto da menina assassinada em 1983 e que virou santa informal no gigantesco Cemitério de Vila Formosa, onde estão sepultadas mais de 1,5 milhão de pessoas. “Acredito em Nossa Senhora, mas prefiro pedir a ela (Débora)”, completa Santos. Débora Campos de Oliveira foi brutalmente assassinada na Zona Leste, em 1983, quando tinha 5 anos, e é considerada milagrosa por milhares de devotos.

Na Penha, Zona Leste da Capital, Cleber Theodósio, morto num acidente de mergulho em 2002, já é considerado milagreiro. Seu túmulo está repleto de placas de bronze com mensagens falando de graças recebidas. “O pessoal começou a colocar placas e flores logo depois da morte dele”, conta o administrador do cemitério, Geraldo José Pereira.

Hábito

É comum que os devotos não saibam a história do milagreiro nem o que ele teria feito para ser adorado pelo povo. "Eu mesma não sei de nada, mas vim, pedi umas coisas e elas foram realizadas. Virou hábito", conta a dona-de-casa Laíde Silveira, de 55 anos, que visita semanalmente o túmulo de Bento do Portão, um mendigo enterrado no Cemitério de Santo Amaro que leva ao local milhares de fiéis todos os meses.

"Começa com uma pessoa que pede uma graça e consegue, e então vira uma bola-de-neve, tenta explicar o aposentado Julino Jorge Soares, que administrou o Cemitério da Penha durante 17 anos. Ele mesmo é fiel fervoroso do menino Cesar Rodrigues, o "santo Cesinha", que morreu vítima de uma meningite" aos 5 anos e foi enterrado na Penha. "Este é milagroso mesmo", garante Soares.

Mas há casos em que a devoção passa. No próprio Cemitério da Penha há um santo que acabou esquecido. É José Garcia, que morreu em 1951 e cujo túmulo foi destino de peregrinações durante anos - mas que hoje está abandonado. "Acho que as pessoas não receberam graças e, com o tempo, se afastaram", analisa Soares.

Proximidade estimula a devoção

A "canonização popular" é uma forma de se aproximar do sobrenatural. "Os santos tradicionais estão longe, enquanto estes (os populares) estão próximos, podem ser tocados." É o que diz o sociólogo Antonio Flavio Pierucci, professor da Universidade de São Paulo.

"O que não tem explicação fica como uma manifestação do divino", afirma a antropóloga Josildeth Consorte, a professora da PUC-SP. Seria o caso de Neuma Damas Vidal, a "santa" Neusinha , que teria previsto a própria morte.

O sociólogo Lísias Noronha Negrão, também professor da USP e estudioso da religiosidade popular, diz que esse tipo de devoção é uma forma de sincretismo (fusão de diferentes crenças). A oferta de presente como chupetas, bonecas, balas e doces para os mortos é uma prática afro-brasileira. "No catolicismo, não há presentes para os mortos", explica. Por isso, diz ele, a Igreja Católica tem se preocupado e "está atenta ao crescimento dessas práticas, para não perder o controle".

A Igreja contesta. Monsenhor Dario Bevilacqua, porta-voz da Arquidiocese de São Paulo, diz que há respeito pela prática. "Não proibimos. Nós respeitamos as devoções populares". garante.

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